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O futuro do marketing como disciplina acadêmica no Brasil

Corcovado brasileiro

O marketing sempre ocupou um espaço híbrido entre ciência social aplicada, prática empresarial e campo interdisciplinar. No Brasil, essa característica se intensificou à medida que o país se transformou economicamente, digitalizou suas relações e expandiu o volume de dados disponíveis sobre comportamento humano. Nos últimos anos, o ensino superior brasileiro vive um momento singular: ao mesmo tempo em que cresce a demanda por profissionais que compreendam tecnologia, comunicação e estratégia, observa-se a necessidade de revisar os fundamentos do marketing ensinados em sala de aula. A disciplina, antes fortemente baseada em modelos clássicos, passa por um processo de reconstrução para responder a um cenário no qual consumidores, mercados e plataformas mudam mais rápido do que os currículos.


O futuro do marketing como disciplina acadêmica no Brasil depende de uma mudança de paradigma. Modelos tradicionais, como as teorias de segmentação, posicionamento e composto mercadológico, não deixam de ser relevantes, mas se tornam insuficientes quando aplicados isoladamente. O avanço da inteligência artificial, da hiperpersonalização, da economia da atenção e da automatização de processos exige que o marketing seja tratado não apenas como estratégia de comunicação ou diferenciação competitiva, mas como ciência comportamental e tecnológica. Isso implica ampliar o diálogo da área com campos como psicologia cognitiva, ciência de dados, antropologia digital, neurociência e design de serviços.


Outro elemento importante para o futuro da disciplina é o papel das universidades na formação crítica dos estudantes. O marketing brasileiro por muito tempo esteve associado exclusivamente ao mercado, deixando em segundo plano a reflexão ética, a análise socioeconômica e o impacto cultural das marcas. A próxima geração de profissionais precisará lidar com dilemas como privacidade de dados, manipulação algorítmica, uso responsável da IA generativa, sustentabilidade e inclusão. A academia, portanto, assume responsabilidade não apenas de ensinar ferramentas, mas de formar indivíduos capazes de compreender as implicações de suas decisões em ecossistemas complexos.


Além disso, a pesquisa acadêmica em marketing no Brasil tende a ganhar protagonismo se se aproximar de problemas reais das organizações e da sociedade. Ainda existe uma distância considerável entre as pesquisas produzidas nas universidades e as decisões tomadas nas empresas. O futuro aponta para uma integração maior entre centros de pesquisa, empresas, startups e entidades setoriais, construindo um ambiente onde teoria e prática se alimentam mutuamente. Linhas de pesquisa sobre comportamento digital brasileiro, economia criativa, comunidades online, influenciadores, consumo sustentável e inteligência artificial aplicada são áreas com grande potencial para consolidar o país como referência regional.


Outro aspecto decisivo é a própria estrutura dos cursos. O formato tradicional, baseado em disciplinas compartimentadas, dá lugar a trilhas interdisciplinares, projetos experimentais, laboratórios de dados e experiências profissionais desde cedo. A formação tende a ser mais prática, mas também mais reflexiva. Em vez de decorar conceitos, o aluno será desafiado a interpretar cenários, construir análises, testar hipóteses e desenvolver soluções contextualizadas. A sala de aula também muda: a educação híbrida e a aprendizagem baseada em projetos transformam o estudante em protagonista, não como mero receptor de conteúdo, mas como agente ativo do conhecimento.


Por fim, o futuro do marketing acadêmico no Brasil será impactado por outra transformação: o surgimento de novas linguagens profissionais. A disciplina deixa de ser exclusivamente verbal ou visual e passa a conversar com dados, algoritmos, interfaces e sistemas inteligentes. Isso exige que a academia forme profissionais com fluência digital, capacidade analítica e domínio de ferramentas que hoje fazem parte do cotidiano das empresas. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de uma formação humanista, capaz de entender pessoas, culturas e contextos — elementos que nenhuma tecnologia substitui.


O futuro do marketing como disciplina acadêmica no Brasil dependerá da sua capacidade de integrar tradição e inovação. Permanecem válidos os fundamentos que explicam comportamento, estratégia e posicionamento, mas eles precisam ser reinterpretados à luz de um mundo orientado por dados, tecnologia e conexões simbólicas. A academia tem o desafio de formar profissionais críticos, éticos e tecnicamente competentes, capazes de transitar entre humanidades e ciência aplicada. À medida que o país se torna mais digital, mais complexo e mais exigente, o marketing acadêmico deixa de ser apenas uma disciplina para se tornar um campo interdisciplinar indispensável para compreender o Brasil contemporâneo.

 
 
 

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